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III

Pedro Bertolino

Sou o que restou após a guerra

ajudei na morte de meus pais
tomei a vida de meus irmãos
estrangulei o menino que fui
cuspi na face do anjo
fiz meu filho ser aborto

paguei todo preço possível
para suportar o grande peso
e te buscar neste momento

(do livro "Trajeto")

II

Pedro Bertolino
o homem assassino estrangulou o menino
e o sangue morno rolando na terra
fez argamassa para o túmulo

ruíram casas, templos, flores,
porque sou lodo, abutre e ferrugem
vim da endosmose de escarro, vermen e nada
os deuses me vomitaram num vazio côncavo

só longe se estendem em todos os sentidos
tocando infinitos no pátio de mim

(do livro "Trajeto")

I

Pedro Bertolino

as flores se abriram para cima
a fim de que o corvo as contemplasse

mas ele trazia em seu bojo
apenas o sangue dos seus ancestrais
e o barro nojento das covas

de seus bicos abertos
caiu um tijolo
e ficou só a lama:
terra hedionda e sangue morto


(do livro "Trajeto")
Pedro Bertolino

o céu fugiu-me às vistas
a terra faltou-me aos pés
veio o abismo da noite

bati em todas as portas
inutilmente

só havia no côncavo do ser
vazio profundo
infinito nada

como os cegos abutres
finquei-me nas trevas

o silêncio tragou-me o grito
as sombras guardaram meus passos


Pedro Bertolino

(do livro "Trajeto")